quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Calendário Celta


“Quatro estações vamos celebrar,
Duendes e fadas vêm nos encantar,
Olhos bem abertos, boca bem fechada,
Nunca entre no País das Fadas.

No Samhain, não saia de casa ao anoitecer,
No Beltaine, o fogo da vida irá te aquecer,
No Imbolc, o amor verdadeiro você pode encontrar,
No Lughnasad, abundância e prosperidade você terá.” 
(Canção das Quatro Estações – Katherine Black)*

O antigo ano céltico era dividido em duas estações: a estação fria, em gaélico giamon, em irlandês gaimred e em galês (do País de Gales) gaeaf e a estação quente, em gaélico samon, em irlandês samrad e em galês haf. Esta divisão era aplicada em todo o mundo celta. Cada uma destas duas estações estava dividida em duas metades, e cada uma delas, dividida mais uma vez em quatro dias e as noites que os precediam, nas quais ocorriam as celebrações.
Os celtas das ilhas e da Gália celebravam quatro datas sazonais, todas associadas com o ano fazendário (de plantio e criação de animais). Eram os festivais dos picos das quatro estações, chamados pelos celtas da Irlanda de Imbolc, Beltaine, Lughnasad e Samhain. Celtas de outras regiões davam nomes diferentes para estas celebrações. E havia, ainda, os celtas que celebravam oito festivais anuais, que eram as entradas das estações, mais especificamente os solstícios e os equinócios, além das quatro comemorações ditas acima.
Além destas celebrações comuns a todos os celtas, existiam no mundo celta antigo os rituais e festivais locais ou regionais comemorados por determinadas tribos célticas, a incrementar e personalizar o calendário céltico.  
Os celtas dividiam os meses e “as noites”, pois não contavam os “dias” como atualmente procedemos, mas sim “noites”. As noites e os meses eram divididos em “bons” ou “auspiciosos”, chamados de mat, em irlandês maith, em galês mad, ou “não bom” ou “desafortunado”, cuja designação é anm, considerando-se, ainda, que o calendário céltico possuía treze meses lunares e ciclos de dezenove anos.
A Roda Céltica do Ano harmonizou as estações com os ciclos lunares. A véspera do Samhain, que no hemisfério norte corresponde à noite de 31 de outubro, era no calendário celta a primeira noite do décimo primeiro mês. Entretanto, por influência cristã, esse dia foi movido para se tornar o último do décimo mês do calendário gregoriano que usamos até hoje.
Da mesma forma, os celtas determinaram que as outras três celebrações teriam início na primeira noite do segundo, quinto e oitavo meses do calendário céltico, os quais conhecemos hoje como fevereiro, maio e agosto.
Outra observação interessante é que os celtas fixaram o início do ano na metade escura e fria do ano, pois entendiam que as trevas precediam a luz. Todo começo é difícil e é preciso ter força e perseverança para prosperar. Se conseguissem sobreviver ao frio do Outono/Inverno, alcançariam a bonança trazida pela Primavera e Verão.

Imbolc

O Imbolc é comemorado no hemisfério norte em 1º de fevereiro, mas no hemisfério sul deve ser comemorado em 1º de agosto. É uma celebração de Inverno e marcava no ano céltico o início da lactação das ovelhas, prenunciando o fim do Inverno.
A partir do Imbolc, a luz começava a se sobressair em relação às trevas; os dias tornavam-se mais longos até a Primavera, quando dia e noite se equilibravam, já que durante o Inverno o período de luz solar era mais curto, amanhecia mais tarde e escurecia mais cedo, e as noites eram longas e frias.
Porém, mesmo sendo um período difícil para os celtas, era a época em que os casais podiam ficar juntos em seus lares. Por isso, na antiga tradição dos celtas da Irlanda, a época propícia para realizar casamentos ocorria entre a Twelfth Night ou “Décima-segunda Noite”, que correspondia a 5 de janeiro, e Shrovetide, ou seja, o início de março (veja o artigo sobre o Beltaine – edição de outubro/11), ou seja, em pleno Inverno.
Isso porque no final do Inverno e início da Primavera, os campos se tornavam novamente férteis, oferecendo novas pastagens para o gado e oportunidade de cultivo da terra. Os homens deixavam seus lares para conduzir o gado a estas pastagens, que ficavam afastadas das comunidades, enquanto mulheres e crianças cuidavam da terra.
Os novos casais, que se uniam em janeiro, ou seja, logo no início do Inverno, tinham até o início da Primavera para estarem juntos. Portanto, o Imbolc marca um período de união, quando as trevas estão em plena força e toda a Natureza está adormecida. Só havia uma chance de sobreviver, e era se unindo em seus lares, diante do calor do fogo sagrado acendido no Samhain, contando apenas com os alimentos que conseguiram estocar na Primavera e no início do Outono.
Nesta época, era preciso tentar manter uma dieta razoavelmente saudável para não adoecer. Por outro lado, a falta do leite e de frutas e vegetais frescos por quase seis meses se traduzia em um período de privações, ao qual somente os mais bem preparados poderiam sobreviver.
Estar unido em família, ter o calor do fogo e do amor era a única chance que os clãs tinham de sobreviverem ao rigoroso Inverno, que além das dificuldades físicas, obrigava os celtas a enfrentarem o frio e a escuridão de suas próprias almas. Quem passasse por esta prova renasceria com a Natureza na Primavera, mais fortalecido e sábio.
A deusa associada ao Imbolc é Brígida ou Brigite, uma feiticeira poderosa, filha do deus Dagda. Peça a ela proteção e força para vencer as dificuldades, os desafios que a vida lhe traz.

Lugnasad
  
Era uma celebração mais agrária que pastoril, que ocorria no hemisfério norte em 1º de agosto. No hemisfério sul, o Lughnasad deve ser comemorado em 1º de fevereiro. Na Gália, esta celebração era chamada de Rivros (agosto) e na Inglaterra, August ou Agosto. Lughnasad, Lugnasad (no irlandês clássico), Lughnasa, era um ritual dedicado ao deus Lug ou Lugh. Os celtas da Gália deram o nome de Lugos/Lugus para a cidade que os romanos chamaram de Lugdunum e hoje é Lyon, na França.
Nos contos irlandeses antigos consta que Lug estabeleceu esta celebração em honra a sua mãe, Tailtiu at Brega, no Condado de Meath. As festividades incluíam corridas de cavalos e combates de artes marciais. Logo esta celebração se espalhou e os celtas da Escócia também a incluíram em seus calendários sob o nome de Lunasduinn. Na Ilha de Man, passou a se chamar Laa Luanistyn.
No período anglo-saxão, o 1º de Agosto tornou-se o Dia de Lammas na Escócia e na Inglaterra, da palavra anglo-saxã hlafmaesse (massa de pão ou pão em massa).
Esse festival não tinha muita importância para os celtas que ocuparam o País de Gales e a Cornualha, locais onde o nome não carregava qualquer eco do deus Lug, pois chamavam esta celebração de Calan Awst (primeiro de agosto) e Morvah, respectivamente.
Os celtas celebravam o Lugnasad (pronuncia-se lúnasa), que era no meio do Verão, para pedir aos deuses que garantissem suas colheitas. Este ritual antecedia as primeiras colheitas, especialmente da cevada e do trigo. Quando a colheita da cevada e do trigo já estivesse bem adiantada, significava que as batatas estavam maturadas e poderiam ser também colhidas.
  
As celebrações do Lugnasad envolviam além dos jogos, que muitas vezes eram até violentos, que os participantes subissem morros e montanhas, alcançando assim o sídh, onde estariam mais próximos das divindades do céu, e podiam colher uvas-do-monte, que nesta época já estavam maduras. O Lugnasad marcava, ainda, o início da época do acasalamento dos rebanhos e seguindo o exemplo da Natureza, era um período de grande atividade sexual entre os celtas.
O foco deste ritual, apesar de estar ligado ao deus Lug, não era o próprio, mas sim a deusa-mãe ou a Grande Mãe, qualquer que fosse o nome que cada tribo celta lhe atribuísse. Era importante render honras à Grande Mãe, para terem certeza de que suas colheitas seriam fartas e que suas provisões para os meses frios do Outono/Inverno estariam asseguradas.
Não se trata de um ritual para agradecimentos, pois os celtas entendiam que a partir do momento em que fizessem sua parte que era trabalhar a terra e cuidar bem dos animais e honrar os deuses, teriam o retorno certo que era a fartura e a abundância em suas mesas.
Para saber sobre o Samhain e o Beltaine, veja respectivamente as edições de maio/2011 e outubro/2011 da revista UP Universos Paralelos.

A deusa que há mim saúda a deusa ou o deus que há em você!