quinta-feira, 27 de junho de 2013

MITOLOGIA CÉLTICA – DEUSAS

Representação de Epona no período da conquista romana.

Os celtas não tinham um panteão como o greco-romano. Para alguns estudiosos, tampouco tinham o costume de atribuir aos deuses forma humana e a representação dos deuses através de imagens entalhadas em madeira começou após as invasões romanas, por volta do século primeiro a.C.
Os deuses eram responsáveis pelas estações e controlavam a Natureza, da qual o ser humano fazia parte. O divino estava em todos os lugares: nas árvores centenárias dos bosques e florestas, nas rochas, fontes, rios, pântanos, montanhas, mar, etc.
As deusas celtas possuíam, normalmente, aspecto triplo. Mórrigan ou Mórrigna, por exemplo, era na verdade integrada por três divindades ou talvez, três aspectos divinos distintos, que eram Mórrigan, Macha e Badb, também chamadas de “as grandes rainhas” ou pelo nome coletivo “Mórrigan, as deusas da guerra”. A deusa Brigit, filha de Mórrigan, assim como a mãe igualmente era dotada de três aspectos.
Entre os deuses, o triplismo era bem menos comum. Dagdá ou “O Bom Deus”, Lug, Taranis, dentre outros, não possuem aspecto triplo. Isso se deve ao fato, provavelmente, de que a energia feminina no mundo céltico estava associada à água, à terra e à Lua. A Lua, por sua vez, possui quatro fases bem distintas e uma quinta que não é propriamente uma fase, mas uma característica da Lua nova que é a Lua Escura e que se trata de três noites entre a Lua minguante e a Lua nova, quando a Lua fica oculta no céu e não pode ser avistada.
Os locais com água, como poços, lagos, fontes, rios, etc., eram personificações da deusa ou do poder feminino e eram considerados Espaços ou Locais Sagrados.

A deusa era a Mãe e o deus era o Pai tribal

Para o professor de Arqueologia Barry Cunliffe, a pedra fundamental da religião celta é que em todas as deusas pode-se observar uma ligação com a Mãe Terra, e em todos os deuses, além dos seus atributos específicos, existiam os atributos próprios da tribo ou comunidade que representavam, embora fossem baseados em Dagdá ou “O Bom Deus”.
Na história irlandesa da Batalha de Moytura, houve um concílio entre os deuses e cada um declarou suas qualidades. Quando chegou a vez de Dagdá, ele disse que aquilo que cada um prometia fazer ele faria sozinho. Os outros deuses responderam: “Então, é você o bom deus”. ‘Bom’, neste caso, não quer dizer ‘bondoso’, mas claramente significa que ele possuía todas as competências, todas as qualidades, reunindo em si a totalidade dos poderes divinos.

As Principais Deusas Celtas

Ana: Ana, Anu ou Anna é uma deusa celta muito antiga que atravessou o mar com os celtas que partiram do continente em direção às ilhas. Esta deusa pode ou não estar identificada com a deusa Danu ou Dana, no genitivo Danann, protetora dos imortais que chegaram à Irlanda, como consta na história do tuatha dé Danann.
De qualquer forma, na Sanas Cormaic ou ‘Glossário de Cormaic’, consta que a Irlanda era conhecida na Antiguidade como ‘Terra de Ana’. Ana ou Dana é a deusa-mãe ancestral da Irlanda e patronesse dos deuses celtas principais.
Em galês, Dana é Dôn, deusa-mãe de cinco crianças míticas da quarta geração do Mabinogi. Há especulações de que o nome do rio Danúbio teria sido dado pelos celtas em homenagem a esta deusa-mãe. 

Boand: era uma deusa imperiosa e luxuriosa de grande beleza. Aparecia acompanhada de um cão de caça, Dabilla. Sua irmã, Bébinn, era a deusa do parto e também era muito bonita.
Boand embora casada com o deus Nechtan, que derivou o latino Netuno, teve um caso com Dagdá e desta união nasceu Angus Óg, o deus da poesia.

Fódla, Banda e Ériu: essas três deusas irmãs eram as guardiãs dos celtas e faziam parte do tuatha dé Danann. Seus nomes também possuem conexão com o nome da Irlanda. Essas três deusas estão ligadas com a deusa tripla Mórrígna, cuja trindade é integrada por Mórrigan, Badb e Macha.

Mórrígna/Morrigan, Macha e Badb ou Badb Catha: Badb Catha que significa ‘O Corvo das Batalhas’, é a deusa que visita os campos de batalha antes e depois, aparecendo para os soldados como um corvo. É a deusa do flagelo e do tormento, causando pânico nos soldados. Os gauleses chamavam-na de Bodua, Catobodua ou Cauth Bova. Morrigan e Macha, por sua vez, possuíam aspectos mais afetos à soberania e fertilidade. Eram dotadas de grande apetite sexual, seduzindo guerreiros, heróis e até mesmo deuses. Morrigan tinha aparência terrível e era extremamente feroz. Macha possuía clara associação com o cavalo, animal extremamente apreciado e respeitado entre os celtas.

Essas três deusas eram comumente chamadas de “Mórrigna ou Morrigan”, que poderia se referir somente à deusa Morrigan, Morrigu ou Mórrigna ou à tríplice deusa Morrigan, Macha e Badb.


Outras Deusas Celtas

Andrasta ou Adrasta: vitoriosa deusa da guerra, especialmente cultuada pelos icenos. Para Rutherford, a deusa fenícia Astarte teria ligação com Andrasta, o que segundo o autor, demonstra que celtas e fenícios mantiveram contatos na Antiguidade.

Artio: era uma deusa-urso das florestas.

Brigit: Brigit ou Brigantia (nome latinizado) era uma deusa antiga dos celtas. Especialmente adorada na Irlanda, era a deusa do fogo.

Coventina: deusa celta das fontes, representada no período romano como uma ninfa nua com uma ânfora da qual caía água. Foi adorada tanto pelos celtas do continente como pelos celtas da Grã-Bretanha.

Epona: deusa-égua com aspectos de fertilidade, cultuada pelos celtas da Irlanda, Escócia e País de Gales.

Nemausicae: Deusa dos celtas da Gália casada com o deus Nemausus. Esse casal divino cedeu seus nomes a Nimes, no sul da França.

Sequana: deusa do rio Sene, ao qual teve seu nome atribuído.

Sulis: essa deusa parece ter surgido no período romano e foi cultuada principalmente pelos gauleses, em Bath, França, onde ficava seu santuário.

Ceridwen – Feiticeira e não deusa

 Na mitologia celta, Ceridwen (pronuncia-se Ker-id-uem) era uma poderosa feiticeira, muito feia, detentora do poder de mudar de forma. Normalmente, na Bruxaria Tradicional e na Wicca, Ceridwen é invocada como uma deusa ao lado de Cernunnos, que seria seu consorte.
Ocorre que Ceridwen é uma bruxa da mitologia dos celtas que ocuparam as ilhas, especialmente o norte do País de Gales. Era casada com Tegid Foel (pronuncia-se teg-id voil), que deu seu nome ao Lago Bala (Bala Lake) e não com Cernunnos (leia sobre esse deus na próxima edição).
Ceridwen teve dois filhos: a bela Creirwy e o medonho Morfran. Aparentemente, Ceridwen também seria mãe de Taliesin. Ela possuía um caldeirão encantado, “o Caldeirão do Conhecimento”, o qual guardava no fundo do Lago Bala, na esperança de reservar os poderes do caldeirão para seus dois filhos.    
Quando finalmente preparou a poção para Morfran, o herói Gwion Bach apareceu a aproximou-se do caldeirão. As três gotas da poção que eram para Morfran caíram acidentalmente em Gwion Bach, garantindo-lhe poderes extraordinários de vidência e sabedoria sobre-humana. Na tentativa de recuperar o poder da poção, Ceridwen o seduziu e o possuiu fazendo-o mudar de forma. Na última transformação, ela o tornou um grão de trigo e o consumiu. Nove meses depois, ela deu à luz Taliesin, o poeta de inspiração divina. 

A deusa que há em mim saúda a deusa ou o deus que há em você!

Nota: Artigo baseado no livro “Bruxas”, p. 126/133.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

MORTE - Parte final


A Morte, mesmo no sentido de “mudança”, é difícil de aceitar!

Mesmo que a Morte no Tarô nos traga notícias de mudanças de contexto em nossa vida cotidiana, e por mais que desejemos essas mudanças durante muito tempo, é difícil aceitá-la, pois somos criaturas de hábitos. Quando finalmente conseguimos alcançar a tão almejada mudança, pranteamos o que estamos deixando para trás. Então, neste contexto, morte é desapego.
Igualmente é difícil nos desapegarmos das partes desgastadas da nossa psique. Os alquimistas reconheciam esse estado e para eles, a Morte simbolizava a necessidade de afrouxar a identificação com o corpo. A recusa a cooperar com o desmembramento do nosso eu desgastado cria uma paralisação completa no fluxo da vida, que redunda em morte espiritual.
Segundo Edward Edinger, “O desmembramento pode ser compreendido psicologicamente como um processo transformativo, que divide um conteúdo inconsciente original para finalidades de assimilação consciente.” Jung explicou que esse comportamento de negar a transformação, o autoconhecimento, pode até ocasionar a morte física.
Jung falou dos caminhos alternativos que escolhemos na tentativa de evitarmos reconhecer que a transformação se faz necessária. Por outro lado, a morte é sedutora e por vezes pode nos oferecer, inconsciente ou conscientemente, a saída, a resolução para nosso dilema, movendo-nos a uma desatenção que pode nos tornar propensos a acidentes, por exemplo.
Em outros casos, essa distração pode nos tornar descuidados com a saúde e obesos, conduzindo-nos a um suicídio mais sincero, nas palavras de Jung. Se o desejo de matar a sombra, nosso lado problemático e não raro rejeitado por nós mesmos, se tornar opressor, poderá resultar em autodestruição - morte.
Existem diversas maneiras sutis de nos suicidarmos, tanto física como espiritualmente. Se não conseguirmos aceitar mudanças, ou se não conseguirmos administrar as tensões às quais podemos ser submetidos no dia-a-dia, esforçando-nos para nos enquadrarmos em padrões cediços e que não correspondem aos nossos anseios e necessidades internas, a morte poderá aparecer em forma de ataque cardíaco, derrame ou qualquer outro mal súbito. Como Jung explicou, a Natureza encontra inúmeros modos de apagar uma existência sem sentido.

Quando perguntaram para Krishnamurti o que acontece depois da morte, ele respondeu: “Saberei quando lá chegar. Por enquanto, não preciso saber.” Perguntaram-lhe como se preparava para a morte. Ele replicou: “Todos os dias morro um pouco.”

Podemos temer a morte e repudiá-la, mas durante a nossa peregrinação pela Terra, nos depararemos com ela inúmeras vezes. E em cada experiência, teremos uma reação diferente, única, que, no entanto, nos fará meditar sobre nossa existência e o caminho que escolhemos para nós nesta vida. Até que finalmente, um dia teremos a nossa experiência pessoal com esta ilustre figura.
No caso de optarmos por encararmos a morte ao longo de nossa existência, aceitando-a como processo natural da vida, sem dúvida, a transformaremos em uma experiência  espiritual.
Assumindo esta conexão entre transformação profunda e renascimento após a morte, diversas tribos antigas praticavam, e algumas ainda praticam, rituais de passagem da infância para a vida adulta nos quais o iniciado deveria literalmente enfrentar a morte.
Às vezes, era abandonado na floresta densa e escura, tendo que retornar sozinho para casa; outras a transição exigia que a criança se lançasse das alturas de uma torre de madeira, presa por uma corda de fibra amarrada em um pé, para chegar no chão como um homem. Esses são alguns rituais, existem muitos outros.
Nas tradições de Magia não era e não é diferente. Como o iniciado pode conhecer verdadeiramente a vida sem vislumbrar o que é a morte? Afinal, vivemos em um mundo de dualidades. Só nos reconhecemos felizes quando ficamos tristes, e assim por diante.
Jung acentuou a idéia de que viver a vida plenamente é a maneira natural de abordar a morte. Analisou os sonhos de centenas de pessoas idosas e descobriu que o inconsciente dos que se aproximam da morte não fala sobre o final da vida, ao contrário, os sonhos parecem continuar, como a dizer que a própria vida continuará. A resposta de Jung sobre como devíamos nos preparar para a morte é que devemos continuar a viver como se a vida continuasse para sempre.  
Edgar Herzog, na sua obra Psyche and Death, explorou minuciosamente as origens dos dois enfoques básicos da morte: o científico e o religioso. Segundo sua tese, o confronto do homem com a morte física pode ter fornecido o primeiro impulso para a ciência e para a religião, pois a capacidade de se horrizar com a morte de outra pessoa é uma das principais características que distinguem os seres humanos dos animais. A primeira reação do homem primitivo, e do que em nós ainda existe de primitivo, é fugir da vista de um cadáver, reação não característica nos outros animais. Esse horror diante de um cadáver, difere do medo específico da morte em si.
Herzog aventou a hipótese de esse sentimento de horror, caracterizando a reação como “horror do incompreensível”, em contraste com “o medo do específico”, foi, provavelmente, a primeira experiência humana do “totalmente inacessível”. Para estabelecer um acordo com esse “totalmente inacessível”, o homem expandiu sua consciência em duas direções: a da religião, para ajudá-lo a aceitar a morte, e a da ciência, que encontra os fatos da morte e tenta controlá-los.



 Concluindo, a Morte em uma consulta pode significar morte física, perdas significativas, pode mostrar que o consulente tem medo da morte ou que está caminhando para ela inconsciente ou até conscientemente.
Cabe ao tarólogo observar, com a ajuda da sua intuição, dos arcanos menores e do contexto do jogo, sobre o que se trata, mas principalmente, é preciso primeiro quebrar os próprio preconceitos sobre este arquétipo, para então poder ajudar os outros a fazê-lo. Afinal, o fluxo da vida segue o princípio da impermanência:

IMPERMANÊNCIA

“A vida é como um piquenique em uma tarde de domingo... ela não dura muito tempo. Só olhar o sol, sentir o perfume das flores ou respirar o ar puro já é uma alegria. Mas se tudo o que fazemos é ficar discutindo onde pôr a toalha, quem vai sentar em que canto, quem vai ficar com o peito ou a coxa do frango..., que desperdício! Mais cedo ou mais tarde o tempo fecha, a tarde cai e o piquenique acaba. E tudo o que fizemos foi ficar discutindo e implicando uns com os outros. Pense em tudo que se perdeu.”

“Você pode estar se perguntando: se tudo é impermanente, se nada dura, como pode alguém viver feliz? É verdade que não podemos, de fato, agarrar ou nos segurar às coisas, mas podemos usar esse conhecimento para olhar a vida de modo diferente, como uma oportunidade muito breve e rara. Se trouxermos à nossa vida a maturidade de saber que tudo é impermanente, vamos ver que nossas experiências serão mais ricas, nossos relacionamentos mais sinceros, e teremos maior apreciação por tudo aquilo que já desfrutamos."

"Também seremos mais pacientes. Vamos compreender que, por pior que as coisas possam parecer no momento, as circunstâncias infelizes não podem durar. Teremos a sensação de que seremos capazes de suportá-las até que passem. E com maior paciência seremos mais delicados com as pessoas a nossa volta. Não é tão difícil manifestar um gesto amoroso quando nos damos conta de que talvez nunca mais estaremos com a nossa tia-avó. Por que não deixá-la feliz? Por que não dispor de tempo para ouvir todas aquelas histórias antigas?"

 "Chegar à compreensão da impermanência e ao desejo autêntico de fazer os outros felizes nesta breve oportunidade que temos juntos, constitui o começo da verdadeira prática espiritual. É esse tipo de sinceridade que efetivamente catalisa a transformação em nossa mente e em nosso ser."

"Não precisamos raspar a cabeça nem usar vestes especiais. Não precisamos sair de casa nem dormir em uma cama de pedras. A prática espiritual não requer condições austeras.... apenas um bom coração e a maturidade de compreender a impermanência."

"Isso nos fará progredir."

Chagdud Tulku Rinpoche, em "Portões da Prática Budista” (texto fornecido por Henrique Terra)



Fábula “Encontro em Samarra”:

“Um criado topou com a Morte, uma velha encarquilhada de vestido preto, na praça do mercado, e viu-a fazer o que lhe pareceu um gesto de ameaça. Aterrado, o criado toma emprestado o cavalo do amo e foge para Samarra. Na mesma tarde, topando com a velha na praça do mercado, o amo pergunta-lhe: ‘Por que fez um gesto de ameça para o meu criado hoje cedo?’ E a morte replica: ‘Não foi um gesto de ameaça: foi apenas um movimento de surpresa. Fiquei espantada ao ver o seu criado em Bagdá, visto que eu tinha um encontro com ele, hoje à noite, em Samarra.’”

A deusa que há mim saúda a deusa ou o deus que há em você!

Lady Mirian Black


A MORTE - Parte 1


“Ó retrato da morte! Ó noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!...” Bocage, em Rimas. (lead)

A carta Morte apareceu repentinamente, pulou do baralho enquanto eu separava os arcanos maiores dos outros. Típico dela, não é?! A morte é repentina, furtiva e inevitável.
Mas o que significa este símbolo durante uma leitura de Tarô? Símbolo, sim, pois a morte em si já traz consigo uma carga imensa de crenças, sentimentos e emoções. O que o criador do Tarô ou quem quer que a tenha inserido nos arcanos maiores quis dizer ao acrescentá-la? Que mensagem quis nos deixar?
A interpretação mais usual para esta carta, e que usei durante anos, é que se tratava do prenúncio de uma transformação radical que aconteceria inevitavelmente na vida do consulente. Seria uma virada de mesa total e completa.
Costumava, ainda, dizer que não necessariamente se tratava de morte física, mas de uma perda significativa em alguma área da vida. Essa interpretação foi a que me pareceu mais acertada por muito tempo, até descobrir que “enfeitar o pavão”, que no caso é simbolizado por um esqueleto bem feio, não ajudava em nada o consulente.

“A morte é certa. Esqueçamo-la.” Balzac

Com o tempo e a maturidade, já que comecei a ler Tarô muito jovem (comecei a ler por intuição, fiz o curso com 14 anos no primeiro Espaço Esotérico do Grande ABC – Centro de Estudos Esotéricos - e não parei mais de estudar), concluí que a Morte representa, de fato, a morte, ainda que seja sua sensação vívida. No Tarô, quando esta carta aparece, retrata o momento da morte, seja do consulente, de alguém de seu convívio ou de uma parte do seu ser.
A experiência da morte causa às pessoas as reações mais diversas e sempre, sempre causa alguma reação. O que não existe é vivenciar esta experiência e continuar como se nada tivesse acontecido. Até o psicopata reage ao evento 'morte', ainda que seja sentindo prazer em causá-la e/ou observá-la.
No caso da morte de alguém que se ama, a pessoa se sente despedaçada, falta-lhe o chão. Os corpos mental, espiritual, emocional e físico se desagregam, se desencontram; a personalidade fica estilhaçada, os hábitos sem sentido, as crenças abaladas, o conceito de eu fica fragmentado. Daí que quem fica igualmente passa pelo processo 'morte', pois sente que uma parte de si morreu também. Isso é morte e é bem real.
O estado acima pode ser gerado, ainda, por uma experiência de quase-morte do próprio consulente ou de alguém que lhe é próximo. E essa quase-morte pode ter causas diversas, como se recuperar de uma doença que quase o matou, sobreviver a um acidente ou catástrofe, ver alguém morrer e até ser obrigado a tirar a vida de outrem em caso de auto-defesa.
Por fim, términos de relacionamentos, a perda de um amor, igualmente podem se traduzir em uma experiência de morte, que causa a desagregação do indivíduo descrita acima, tanto quanto na perda física de alguém que ele ama.
Quando a morte aparece em uma leitura, sem dúvida sinaliza que uma experiência radical ocorreu ou está a caminho. E esteja certo que é mais do que uma mera “virada de mesa” ou “uma transformação radical em alguma área da vida”. A Morte mostra um período de perda profunda, escuridão, medo, incerteza, até que a pessoa possa ressurgir, renascer como alguém novo e inteiro, numa vida nova e completa.

A Morte traz um período de luto

Entre o velho que vai embora e o novo que se estabelecerá, deve haver um período de luto nesta transição. Os alquimistas chamavam este estado de mortificatio. É importante que o consulente compreenda que deve vivenciar este luto, pois tentar fugir deste estado transitório pode causar inúmeros prejuízos à pisque.
Jung disse que aceitar tanto a morte quanto o nascimento como partes da vida, é tornar-se verdadeiramente vivo. “Não desejar viver é sinônimo de não querer morrer. Vir a ser e deixar de existir são a mesma curva. Quem quer que não acompanhe essa curva permanece suspenso no ar e fica paralisado. A partir da meia-idade, só permanece vivo quem está disposto a morrer com a vida.” E complementa: “Aceitar o fato de que você perece a seu tempo é uma espécie de vitória sobre o tempo.”

A Morte é a grande niveladora do Universo!


 Sem dúvida a morte é universal e impessoal. Sua representação no Tarô de Marselha, por exemplo, é a de um esqueleto segurando uma foice, ceifando a vida, dilacerando os seres. Cabeças, mãos, pés, pedaços de corpos humanos estão por toda a parte. 
As cabeças simbolizam as idéias, os pontos de vista são simbolizados pelos pés e as atividades são representadas pelas mãos; todas estas partes do corpo jazem inúteis, todos os aspectos da vida parecem ter sido cortados, inclusive o seu princípio orientador (representado pela cabeça com a coroa), mostrando que o indivíduo não é mais dono do seu destino, de suas decisões.




No Tarô de Waite, a Morte vem na figura de um cavaleiro que avança impassível sobre pessoas de diferentes níveis sociais e idades. Para a morte é indiferente. Ela chega para todos: homens, mulheres, crianças, idosos, ricos, pobres.   
A foice representa Cronos ou Saturno, deus do tempo. Por outro lado, o cavalo mostra a idéia medieval de morte, quando epidemias assolavam comunidades inteiras e nada podia ser feito, pois as doenças da época eram desconhecidas e não havia tratamento. Assim também com as catástrofes naturais, cujas causas desconhecidas impediam o prenúncio. Portanto, a morte devia parecer uma cavalaria avançando sobre as pessoas, abatendo-as aos milhares, ceifando muitas vidas num só golpe.
A pergunta crucial é: porque a morte foi inserida na metade dos arcanos maiores ao invés de ser posicionada no final, como seria de se esperar? Esse questionamento é válido se considerarmos que os trunfos falam de uma viagem, do roteiro da vida e o viajante é o Louco, que não tem número e vaga livremente pelos arcanos maiores. Esse viajante viria do plano espiritual (A Sacerdotisa, a qual entendo que deve vir antes do Mago), depois há o princípio inteligente que é o espírito (O Mago), gestado pela Imperatriz tendo como pai o Imperador.
No Carro, o viajante cresce e sai para o mundo, encontra seu destino (A Roda da Fortuna), sofre (O Enforcado), passa por provações e desestruturações (A Torre), aprende a ter fé e esperança (A Estrela) até a vitória final que é o Mundo, isto é, atingir sua plena integração consigo mesmo e de si  - microcosmos - com os deuses - macrocosmos. Deste ponto de vista, não seria mais lógico que a Morte estivesse no final, depois de tudo?
No meu entendimento, a vida só tem sentido quando compreendemos o quão efêmera ela é. E somente podemos ter esta compreensão a partir da experiência de morte. O viajante, assim como nós, consegue entender e valorizar este dom maravilhoso que é vida apenas quando se depara com esta experiência marcante que é a morte, seja a morte de alguém que lhe é próximo, seja a morte de si mesmo, pela desagregação, fragmentação do eu através das perdas significativas.
A carta anterior, o Enforcado, mostra o viajante ou o consulente dependurado pelo pé, encarcerado em si mesmo. Se o Enforcado não quiser ficar suspenso, paralisado espiritualmente, precisará dar o passo seguinte que o conduzirá através do vale das sombras, à aceitação da morte. Afinal, só pode nascer de novo aquele que morre.
Perceba que não há opção. Se decidirmos nos libertar daquela situação incômoda para sermos livres, devemos confrontar a morte. Se não o fizermos, inevitavelmente estaremos nos condenando à morte, como Jung explicou. A diferença é que no primeiro caso, quando optamos por enfrentar a morte conscientemente, ou seja, quando decidimos abrir mão, perder para poder recomeçar, estaremos nos libertando das amarras do limitado e cômodo mundinho no qual nos encerramos para abrirmos nossas mentes para algo bem maior. Neste caso, a morte é um processo espiritual e mental. No segundo caso, se nos negarmos a mudar, a crescer, a enfrentar as perdas e a dor, estaremos nos condenando à morte física. A negação da morte é, de fato, um processo psicológico perigoso.
Portanto, depois desta carta, o viajante passa a encarar a vida, a existência, com outros olhos, com mais equilíbrio e respeito (A Temperança), encarando seus medos, sua sombra (O Demônio), testando seus limites e sofrendo as consequências (A Torre), aprendendo a confiar na Criação e a ter fé no plano espiritual e em si mesmo (A Estrela), e assim sucessivamente.
Tudo que se passa depois da Morte são experiências que proporcionam grande crescimento espiritual, pessoal, portanto. Até a Morte, ainda estamos apegados aos valores básicos e instituais da vida como comer, dormir, estudar, trabalhar, família. Tudo gira em torno do eu.
Depois da experiência da Morte, passamos a pensar por nós mesmos, a questionar, a enxegar de fato o mundo ao nosso redor e a querer viver, viver plenamente, cada segundo. Conseguimos ver além dos nossos umbigos, percebemos os outros, as interações possíveis, prováveis e improváveis, e como as trocas podem ser ricas e maravilhosas. O Julgamento ocorre de nós para nós mesmos, através da nossa consciência. A vitória final – O Mundo - é quando vencemos nosso pior inimigo: nós mesmos. “Conhece-te a ti mesmo!”



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

ARCANO 20 - O JULGAMENTO

A carta escolhida fala da descoberta dos mistérios ocultos que traz a transformação, a transmutação do ser, que é “O Julgamento”. É quando barreiras são rompidas, a fronteira entre dois mundos é cruzada, e o ser, livre e desprovido das suas limitações, que podemos interpretar como o corpo físico, se estivermos falando da desencarnação; ou como um conjunto de hábitos, comportamentos e crenças, se estivermos falando de uma mudança radical no nosso modo de ser e viver; se sente totalmente liberto para não mais pensar, mas simplesmente sentir, vibrar e ser, em comunhão com o Todo. Esta carta também pode mostrar o êxtase místico através do qual o iluminado alcança a sabedoria e fica mais próximo da Criação.
O Julgamento, longe de conter o conceito retrógrado mas razoavelmente novo do julgamento católico da alma sendo encaminhada para o céu ou para o inferno, oferece, ao contrário, uma nova perspectiva de compreensão e integração do indivíduo com o macrocosmos, da criatura com a fonte criadora.
Nesta hora, não existem barreiras, não existem padrões, não existe nada além do ser que pulsa e sente em uníssono com o Universo. Permita-se se libertar de preconceitos, medos, angústias, e qualquer pensamento ou sentimento limitante que o impeça de ir além.
A prisão está dentro de nós, em nossas mentes ou espíritos. Liberta a mente, onde o corpo se encontra é insignificante. A realidade é subjetiva, nós a criamos. Não existe certo ou errado, existe um julgamento social que nos permite conviver em sociedade e existe a verdade profunda, que está dentro de cada ser. Só você pode encontrar e compreender a sua verdade.
E nesta jornada incessante, posto que terminada a jornada não há mais interesse na vida, o que se pode concluir é que o Tarot é o meio, o fim e o começo.  

A deusa que há mim saúda a deusa ou o deus que há em você!

O TARÔ COMO MEIO, FIM E COMEÇO

Jung descobriu o que chamou de inconsciente coletivo. Sua contribuição à humanidade foi inimaginável, até mesmo para ele, posto ter estudado o maior mistério de todos: a mente humana. Jung traduziu a mente em consciente (soma dos símbolos e sensações disponíveis à nossa consciência), inconsciente (representado por todos os aspectos da experiência que o indivíduo não pode simbolizar por qualquer ra­zão) e o grande paradoxo que é a relação simbiótica que necessariamente deve existir entre ambos “os lados” para que o indivíduo seja e esteja equilibrado e harmonioso.
Fez, ainda, uma distinção entre o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, sendo este último a somatória de todas as experiências de uma coletividade humana, seja uma nação, uma tribo, uma raça ou mesmo toda a humanidade.
A palavra “arquétipo”, muito aplicada no estudo do Tarot, é na definição junguiana “uma tendência abstrata e genérica que está por trás de determinada manifestação. Assim, cada aspecto objetivo da realidade expressa um arquétipo. Por exemplo, os instin­tos sexuais são uma forma de expressão do arquétipo da reprodução.
Para Jung, o ser humano é o produto da manifestação de alguns arquétipos básicos, como a persona (a máscara que apresentamos ao mundo, nossa couraça, aquilo que mostramos aos outros), o ego (nosso auto-conceito, aquilo que consideramos como sendo nós mesmos), sombra (a soma das características que não aceitamos em nós mesmos e, por isso, negamos, tornando-as inconscientes e projetan­do-as em outras pessoas), animus (soma das qualidades masculinas contidas na mulher), anima (lado feminino no homem) e o eu (que representa a totalidade da psique humana, o centro de crescimento e evolução de cada indivíduo).
Segundo Jung, o homem tende a evoluir psicologicamente no sentido de obter uma crescente integração entre o consciente e o incons­ciente pessoais, num processo que ele chamou de individuação. Esse processo envolve a progressiva tomada de consciência das manifestações dos arquétipos inconscientes da psique - a persona, a sombra, o animus ou anima e, finalmente, a relação consciente com o eu, o centro vital do psiquismo. Posteriormente, observou que há uma tendência no indivíduo de en­trar em relação consciente com o inconsciente coletivo.
Isso significa que é no inconsciente coletivo que se pode buscar o simbolismo contido ou que existiu no Tarot em algum momento pregresso. Na abordagem junguiana, o símbolo é tudo o que desperta em nós idéias e emoções vagas e complexas, e normalmente é representado por uma imagem (a triskle, por exemplo).
O símbolo é visto, também, como uma forma de expressão dos arquétipos, tanto indi­viduais como coletivos, e só pode ser interpretado no contexto indivi­dual ou cultural em que se apresenta. Sobre os símbolos, leia os artigos de Magia Atemporal das edições de junho e julho/2011.
Ao acessarmos os símbolos contidos no inconsciente coletivo, teremos acesso ao  conhecimento e à sabedoria. E como fazer essa ligação conscientemente? A resposta é paradoxalmente simples e complexa: através do Tarot. Você pode se perguntar: “Do Tarot cujo simbolismo foi deturpado e em parte perdido ao longo dos séculos?” E eu respondo: “Exatamente!”
Partiremos do princípio de que “o que está embaixo, assim também é acima”. É um princípio alquímico e espiritual poderoso que encerra grande sabedoria. Se o Tarot é uma codificação simbólica para o conhecimento não só do ser ou do tempo, mas especialmente do micro (ser humano) e do macrocosmo (Universos), nada mais lógico que usar esta simbologia para ligar nosso inconsciente individual com o coletivo, acessando toda a carga armazenada desde o começo dos tempos neste planeta.
Mesmo que o Tarot que chegou até nós hoje esteja em parte perdido ou desvirtuado, ainda existem nele símbolos preservados os quais poderemos usar para o nosso intento. E acessando o inconsciente coletivo através destes símbolos, receberemos o conhecimento que nos foi dado num passado distante, perdido pela passagem de Cronos (tempo).
O Tarot, neste caso, não é o objetivo final, mas é o veículo para um alcance maior, para a amplitude da consciência, do eu e do Todo. E nesta via de mão dupla, ao trabalharmos com o ‘veículo’ e ao atingirmos o Todo (conhecimento através do inconsciente coletivo), conheceremos mais do simbolismo, vislumbraremos os verdadeiros mistérios e segredos outrora impressos ocultamente (por símbolos) no ‘veículo’ (Tarot).

A deusa que há em mim saúda a deusa ou o deus que há em você!

TARÔ - O GRANDE LIVRO

A origem do Tarô, Tarot, Taroch, Tarok, Tarocco, Tarocchi, dentre outros nomes pelos quais é conhecido no mundo, é tão obscura quanto a origem do próprio nome. Acredita-se que desde o século XII os ciganos ou gipsys já utilizavam um baralho para “ler a sorte” das pessoas. Este conjunto de cartas ou lâminas teria sido trazido por eles do Egito, espalhando-se pela Europa na Idade Média.
Em 1.392, o rei da França Carlos VI encomendou por um bom preço ao pintor Jacquemin Gringonneur três pacotes de cartas ricamente ilustradas. Há notícias também de um baralho de Tarô datado do século XV, encomendado a um artista chamado Bonifácio Bembo pela família Visconti de Milão, que aparentemente deixaram quinze jogos de Tarô incompletos, os quais atualmente ainda existem na Itália, imagino que em algum museu. Esse conjunto de pinturas compreendia um baralho clássico para o jogo italiano Tarocchi[1].
A primeira descrição de um baralho de Tarô, porém, só apareceu séculos mais tarde. Seu autor foi o teólogo protestante francês e historiador Antoine Court de Gébelin (1.725 – 1.784). No primeiro dos nove volumes de sua obra “Le Monde Primitif”, Gébelin afirma que as cartas do Tarô foram extraídas do Livro de Thoth (deus egípcio das letras e da escrita).
As teorias para explicar as origens do nome “Tarô” são inúmeras. Há quem afirme que este nome provem do próprio jogo italiano Tarocchi, outros afirmam que a palavra francesa tarot teria origem no Antigo Egito e significaria “roda” ou “caminho”, conquanto outros estudiosos afirmem que segundo a etimologia francesa, tarot é um empréstimo do italiano tarocco, derivado de tara, que seria "perda de valor que sofre uma mercadoria, dedução, ação de deduzir", o que pode ter a ver com o próprio jogo Tarocchi em termos de perder e ganhar dinheiro com as apostas. Outras fontes informam que o nome Tarok teria origem na palavra árabe turuq, que significa "quatro caminhos", ou talvez em outra palavra árabe tarach, que significa "rejeito".
Na verdade, estudar as origens do Tarô ou do próprio nome não é minha intenção. Prefiro voltar a atenção para a simbologia arquetípica inegavelmente contida nos arcanos ou trunfos (cartas do Tarô).
A palavra arcano vem do latim arcanu, que quer dizer segredo, mistério. Este mistério estaria oculto nos símbolos arquetípicos trazidos nas setenta e oito cartas do Tarô, mas é nas vinte e duas cartas iniciais, conhecidas como arcanos maiores que está concentrada a grande riqueza arquetípica deste grande livro milenar.
Por isso, para efeitos de estudos e observações, não me deterei em questionamentos como se os baralhos de Tarô que conhecemos hoje trazem a simbologia original ou se teriam sido alterados, distorcidos e até mesmo deturpados ao longo dos séculos, e acredito que invariavelmente foram. Simplesmente partirei do princípio de que a simbologia a qual temos acesso através do Tarô encerra em si a oportunidade de estudos aprofundados e grande conhecimento por parte daqueles que se aventurarem a desvendar esses mistérios. Para tanto, abordarei o Tarô através de uma visão bastante junguiana.
Para um primeiro contato com você, leitor/a, convido-o/a em primeiro lugar a adquirir um baralho de Tarô se não tiver um. E é interessante que conheça minimamente sobre o significado das cartas, pois assim poderá escolher o Tarô que lhe chamar a atenção, ou seja, cuja simbologia falar ao seu inconsciente.
Feito isso, aos leitores que já possuem um baralho e até mesmo que já estudam este grande livro de mistérios, convido-os a deixarem de lado por um instante todo o entendimento que formaram acerca do Tarô, para verem estes arcanos com outros olhos, com os meus olhos...
O que você pretende com o Tarô? A busca de auto-conhecimento, conhecer o outro e/ou o Universo? Utilizá-lo como oráculo para obter orientação nas mais diversas áreas da vida e orientar outras pessoas também? Pretende conseguir se encontrar e, assim, encontrar seu caminho na vida? Quer obter cura para os desequilíbrios energéticos (vulgarmente falando – as doenças), quer alcançar equilíbrio, harmonia, paz interior, iluminação? Gostaria de aflorar seus dons mediúnicos, aprender a ouvir sua intuição, desenvolver a premonição? Ótimo, porque tudo isso e muito mais pode ser obtido através do Tarô.
Quanto ao arcano acima, observe-o com atenção e perceba que sentimentos, impressões e sensações desperta em você? Esta é a carta “Força”, do Tarô das Bruxas[2], tirada por mim ao acaso. Em alguns baralhos, como neste por exemplo, a Força é a carta de número 8, enquanto em outros é número 11 e em outros Tarôs, ainda, as cartas não possuem numeração, como no Tarô Mitológico.
Esta carta mostra um animal selvagem, aqui representado por uma leoa, totalmente submissa à mulher ou bruxa. A interpretação usual deste simbolismo é que o animal selvagem representa nosso lado irracional, nossos instintos, enquanto a figura humana representa o raciocínio lógico, o que leva à interpretação de que nosso lado consciente, racional domina o lado irracional, inconsciente, instintual. Essa é o entendimento mais comum.
Agora, perceba o que está por trás deste simbolismo e além. Para mim, não se trata de dois lados da mente, consciente e inconsciente, racional e irracional, mas se trata da ambigüidade de todos os seres como sentir – pensar, força – fragilidade, mente/espírito – corpo, desejo – contenção,  luz – sombra (luz e sombra no sentido junguiano, sendo luz as qualidades desejadas e valorizadas por nós e sombra as características que não aceitamos em nós mesmos e reprimimos, mas que invariavelmente se projetam no outro), etc. Todas essas duplicidades se opõem e ao mesmo tempo se completam.
Você não pode só sentir, mas também não pode só pensar para tomar atitudes, fazer escolhas na vida. O ideal, o equilíbrio encontra-se em analisar ambos os lados, refletindo sobre a questão e sentindo-a, para depois extrair disso uma conclusão. A força é necessária em alguns momentos, mas em outros, devemos assumir nossas fragilidades, nossas fraquezas para que possamos aprender a ser fortes. E forte pode ser física ou emocionalmente ou ambos.
Quanto às qualidades e à sombra junguianas, o que é qualidade e o que é defeito para você? Ser perfeccionista é qualidade ou defeito? Minha resposta é “Depende!”, pois parto do princípio de neurolinguística de que todo comportamento é útil em algum contexto.      
Portanto, antes de querer “se livrar” de algum comportamento, crença ou hábito, pense em que contexto isso é útil para você, porque certamente se ele existe, é porque tem sua importância e precisão. Somente quando você entender essa dinâmica e aprender que sem substituir este comportamento, crença, etc indesejado por outro que lhe cumpra a função positiva, não conseguirá se livrar disso de forma harmônica e saudável. Se você se desfizer deste padrão sem substituí-lo, trará conseqüências indesejadas e ás vezes, até graves para seu sistema (integração corpo, mente, espírito).
Por exemplo, quem quer desesperadamente parar de fumar, não pode simplesmente parar de repente. Das duas uma: ou invariavelmente voltará a fumar, ou terá alguma reação séria diretamente proporcional à dependência que apresentava ao cigarro. A solução? Entenda o que fumar lhe traz de bom, porque traz algum benefício caso contrário você não fumaria, verifique que outro hábito (saudável, claro) pode lhe proporcionar o mesmo bem-estar, comece a praticar este novo padrão e muitas vezes naturalmente sua vontade ou necessidade de fumar diminuirá. Desta forma você deixará mesmo de fumar e não voltará atrás.
Tudo isso, todos esses padrões contraditórios e de complementaridade estão contidos neste arcano do Tarô, a Força.

A deusa que há mim saúda a deusa ou o deus que há em você!


[1] Pollack, Rachel. “Setenta e oito graus de sabedoria”, Ed. Nova Fronteira, p. 09.
[2] “The Witches Tarot”, Ellen Cannon Reed e Martin Cannon, Ed. Llewellyn, 1.996, EUA.