quarta-feira, 24 de abril de 2013

A MORTE - Parte 1


“Ó retrato da morte! Ó noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!...” Bocage, em Rimas. (lead)

A carta Morte apareceu repentinamente, pulou do baralho enquanto eu separava os arcanos maiores dos outros. Típico dela, não é?! A morte é repentina, furtiva e inevitável.
Mas o que significa este símbolo durante uma leitura de Tarô? Símbolo, sim, pois a morte em si já traz consigo uma carga imensa de crenças, sentimentos e emoções. O que o criador do Tarô ou quem quer que a tenha inserido nos arcanos maiores quis dizer ao acrescentá-la? Que mensagem quis nos deixar?
A interpretação mais usual para esta carta, e que usei durante anos, é que se tratava do prenúncio de uma transformação radical que aconteceria inevitavelmente na vida do consulente. Seria uma virada de mesa total e completa.
Costumava, ainda, dizer que não necessariamente se tratava de morte física, mas de uma perda significativa em alguma área da vida. Essa interpretação foi a que me pareceu mais acertada por muito tempo, até descobrir que “enfeitar o pavão”, que no caso é simbolizado por um esqueleto bem feio, não ajudava em nada o consulente.

“A morte é certa. Esqueçamo-la.” Balzac

Com o tempo e a maturidade, já que comecei a ler Tarô muito jovem (comecei a ler por intuição, fiz o curso com 14 anos no primeiro Espaço Esotérico do Grande ABC – Centro de Estudos Esotéricos - e não parei mais de estudar), concluí que a Morte representa, de fato, a morte, ainda que seja sua sensação vívida. No Tarô, quando esta carta aparece, retrata o momento da morte, seja do consulente, de alguém de seu convívio ou de uma parte do seu ser.
A experiência da morte causa às pessoas as reações mais diversas e sempre, sempre causa alguma reação. O que não existe é vivenciar esta experiência e continuar como se nada tivesse acontecido. Até o psicopata reage ao evento 'morte', ainda que seja sentindo prazer em causá-la e/ou observá-la.
No caso da morte de alguém que se ama, a pessoa se sente despedaçada, falta-lhe o chão. Os corpos mental, espiritual, emocional e físico se desagregam, se desencontram; a personalidade fica estilhaçada, os hábitos sem sentido, as crenças abaladas, o conceito de eu fica fragmentado. Daí que quem fica igualmente passa pelo processo 'morte', pois sente que uma parte de si morreu também. Isso é morte e é bem real.
O estado acima pode ser gerado, ainda, por uma experiência de quase-morte do próprio consulente ou de alguém que lhe é próximo. E essa quase-morte pode ter causas diversas, como se recuperar de uma doença que quase o matou, sobreviver a um acidente ou catástrofe, ver alguém morrer e até ser obrigado a tirar a vida de outrem em caso de auto-defesa.
Por fim, términos de relacionamentos, a perda de um amor, igualmente podem se traduzir em uma experiência de morte, que causa a desagregação do indivíduo descrita acima, tanto quanto na perda física de alguém que ele ama.
Quando a morte aparece em uma leitura, sem dúvida sinaliza que uma experiência radical ocorreu ou está a caminho. E esteja certo que é mais do que uma mera “virada de mesa” ou “uma transformação radical em alguma área da vida”. A Morte mostra um período de perda profunda, escuridão, medo, incerteza, até que a pessoa possa ressurgir, renascer como alguém novo e inteiro, numa vida nova e completa.

A Morte traz um período de luto

Entre o velho que vai embora e o novo que se estabelecerá, deve haver um período de luto nesta transição. Os alquimistas chamavam este estado de mortificatio. É importante que o consulente compreenda que deve vivenciar este luto, pois tentar fugir deste estado transitório pode causar inúmeros prejuízos à pisque.
Jung disse que aceitar tanto a morte quanto o nascimento como partes da vida, é tornar-se verdadeiramente vivo. “Não desejar viver é sinônimo de não querer morrer. Vir a ser e deixar de existir são a mesma curva. Quem quer que não acompanhe essa curva permanece suspenso no ar e fica paralisado. A partir da meia-idade, só permanece vivo quem está disposto a morrer com a vida.” E complementa: “Aceitar o fato de que você perece a seu tempo é uma espécie de vitória sobre o tempo.”

A Morte é a grande niveladora do Universo!


 Sem dúvida a morte é universal e impessoal. Sua representação no Tarô de Marselha, por exemplo, é a de um esqueleto segurando uma foice, ceifando a vida, dilacerando os seres. Cabeças, mãos, pés, pedaços de corpos humanos estão por toda a parte. 
As cabeças simbolizam as idéias, os pontos de vista são simbolizados pelos pés e as atividades são representadas pelas mãos; todas estas partes do corpo jazem inúteis, todos os aspectos da vida parecem ter sido cortados, inclusive o seu princípio orientador (representado pela cabeça com a coroa), mostrando que o indivíduo não é mais dono do seu destino, de suas decisões.




No Tarô de Waite, a Morte vem na figura de um cavaleiro que avança impassível sobre pessoas de diferentes níveis sociais e idades. Para a morte é indiferente. Ela chega para todos: homens, mulheres, crianças, idosos, ricos, pobres.   
A foice representa Cronos ou Saturno, deus do tempo. Por outro lado, o cavalo mostra a idéia medieval de morte, quando epidemias assolavam comunidades inteiras e nada podia ser feito, pois as doenças da época eram desconhecidas e não havia tratamento. Assim também com as catástrofes naturais, cujas causas desconhecidas impediam o prenúncio. Portanto, a morte devia parecer uma cavalaria avançando sobre as pessoas, abatendo-as aos milhares, ceifando muitas vidas num só golpe.
A pergunta crucial é: porque a morte foi inserida na metade dos arcanos maiores ao invés de ser posicionada no final, como seria de se esperar? Esse questionamento é válido se considerarmos que os trunfos falam de uma viagem, do roteiro da vida e o viajante é o Louco, que não tem número e vaga livremente pelos arcanos maiores. Esse viajante viria do plano espiritual (A Sacerdotisa, a qual entendo que deve vir antes do Mago), depois há o princípio inteligente que é o espírito (O Mago), gestado pela Imperatriz tendo como pai o Imperador.
No Carro, o viajante cresce e sai para o mundo, encontra seu destino (A Roda da Fortuna), sofre (O Enforcado), passa por provações e desestruturações (A Torre), aprende a ter fé e esperança (A Estrela) até a vitória final que é o Mundo, isto é, atingir sua plena integração consigo mesmo e de si  - microcosmos - com os deuses - macrocosmos. Deste ponto de vista, não seria mais lógico que a Morte estivesse no final, depois de tudo?
No meu entendimento, a vida só tem sentido quando compreendemos o quão efêmera ela é. E somente podemos ter esta compreensão a partir da experiência de morte. O viajante, assim como nós, consegue entender e valorizar este dom maravilhoso que é vida apenas quando se depara com esta experiência marcante que é a morte, seja a morte de alguém que lhe é próximo, seja a morte de si mesmo, pela desagregação, fragmentação do eu através das perdas significativas.
A carta anterior, o Enforcado, mostra o viajante ou o consulente dependurado pelo pé, encarcerado em si mesmo. Se o Enforcado não quiser ficar suspenso, paralisado espiritualmente, precisará dar o passo seguinte que o conduzirá através do vale das sombras, à aceitação da morte. Afinal, só pode nascer de novo aquele que morre.
Perceba que não há opção. Se decidirmos nos libertar daquela situação incômoda para sermos livres, devemos confrontar a morte. Se não o fizermos, inevitavelmente estaremos nos condenando à morte, como Jung explicou. A diferença é que no primeiro caso, quando optamos por enfrentar a morte conscientemente, ou seja, quando decidimos abrir mão, perder para poder recomeçar, estaremos nos libertando das amarras do limitado e cômodo mundinho no qual nos encerramos para abrirmos nossas mentes para algo bem maior. Neste caso, a morte é um processo espiritual e mental. No segundo caso, se nos negarmos a mudar, a crescer, a enfrentar as perdas e a dor, estaremos nos condenando à morte física. A negação da morte é, de fato, um processo psicológico perigoso.
Portanto, depois desta carta, o viajante passa a encarar a vida, a existência, com outros olhos, com mais equilíbrio e respeito (A Temperança), encarando seus medos, sua sombra (O Demônio), testando seus limites e sofrendo as consequências (A Torre), aprendendo a confiar na Criação e a ter fé no plano espiritual e em si mesmo (A Estrela), e assim sucessivamente.
Tudo que se passa depois da Morte são experiências que proporcionam grande crescimento espiritual, pessoal, portanto. Até a Morte, ainda estamos apegados aos valores básicos e instituais da vida como comer, dormir, estudar, trabalhar, família. Tudo gira em torno do eu.
Depois da experiência da Morte, passamos a pensar por nós mesmos, a questionar, a enxegar de fato o mundo ao nosso redor e a querer viver, viver plenamente, cada segundo. Conseguimos ver além dos nossos umbigos, percebemos os outros, as interações possíveis, prováveis e improváveis, e como as trocas podem ser ricas e maravilhosas. O Julgamento ocorre de nós para nós mesmos, através da nossa consciência. A vitória final – O Mundo - é quando vencemos nosso pior inimigo: nós mesmos. “Conhece-te a ti mesmo!”



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